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A experiência de fé e a política: um palpite teológico

Por Milena Medeiros e Marques*



A partir de uma perspectiva teológica, a autora entra na espinhosa relação entre fé e política em busca de responder à questão: “como a fé da pessoa crente se manifesta na esfera política numa sociedade laica?” Para ela, o caminho em busca de uma resposta para essa questão está na resposta de fé ao testemunho dado por Jesus que viveu animado pelo Espírito.




O tema deste artigo surgiu no evento de lançamento do livro do professor Alexandre Martins, “Covid-19, política é fé: bioética em diálogo na realidade enlouquecida”[1]. Na ocasião, foi-nos feita uma pergunta sobre a relação entre a experiência de fé e a política, questão que desperta reações ambíguas em diferentes frentes. Um dos aspectos dessas reações refere-se ao fato de que a memória da associação milenar entre a religião cristã e o poder político no Ocidente geralmente evidencia as consequências nocivas que tal associação legou a ambos. Há, por um lado, a percepção de que a identificação do exercício de poder com imagens de Deus expõe-se a performar relações sociais assimétricas que, não poucas vezes, derivam em opressão. Por outro lado, nota-se que a separação entre as esferas religiosa e política não foi suficiente para que a mútua implicação delas deixasse de colocar-se como problema. Quanto a esse ponto, observa-se, por exemplo, que desde a modernidade, o fenômeno de secularização das sociedades ocidentais foi um processo que, ao alicerçar as bases da sociedade sobre si própria, evidenciou a distinção entre as esferas política e religiosa, por meio da circunscrição do religioso ao âmbito da vida privada[2]. Os benefícios que decorreram dessa separação não impediram de ver, porém, uma alheação mútua que, no extremo, configura no campo social não apenas a independência, mas até mesmo a oposição entre fé e política.

Do ponto de vista da religião, se a fusão entre fé e política, da qual temos modelos históricos, é problemática, a separação entre ambas apresenta o risco de torná-las realidades alheias, esvaziando a fé de sua força propulsora de vida[3]. Coloca-se, assim, a necessidade de entender de que modo a experiência de fé interfere na esfera política. Mais precisamente, perguntamo-nos: como a fé da pessoa crente se manifesta na esfera política numa sociedade laica? Diversas abordagens dessa questão são possíveis e há extensa bibliografia sobre o assunto. Nesse espaço, propomos apenas algumas notas sobre o tema.



Do ponto de vista teológico, abordaremos a articulação entre fé e política a partir de uma consideração sobre o termo fé. Na tradição cristã, o magistério eclesial assinala que a fé é em primeiro lugar a adesão pessoal a Deus e, inseparavelmente, acolhimento das verdades reveladas.[4] Na base dessa definição está o reconhecimento da clássica distinção entre o ato de crer e as expressões da fé (fides qua e fides quae).[5] Tal distinção esclarece que a fé é, em primeiro lugar, um ato humano. Esse ato pessoal, vivido historicamente pelo fiel, se expressa em linguagem consoante com a cultura de cada época e lugar. Nesse sentido, pode-se dizer que as expressões da fé implicam certa representação da realidade. Essa, porém, não se identifica absolutamente com o ato de crer, embora paradoxalmente, tampouco dele se separa.

As representações ligadas à experiência da fé, ao ato de crer, constituem um fator importante na configuração da existência do fiel. Quanto a isso, pode-se dizer que as imagens de Deus que habitam o fiel performam sua maneira de estar no mundo. Na tradição cristã, as representações do divino têm como paradigma a experiência de Jesus. Seu modo de viver, de se relacionar com as pessoas e com Deus, a quem chamava de Pai, de tal modo impactaram os seus que, à luz da ressurreição, a comunidade que se reúne em torno de sua memória o confessa, pela fé, Senhor, inserindo-o na esfera divina, da mesma substancia do Pai, como o definiu, no século IV, o I Concílio de Niceia. O testemunho desse homem está na base da imagem que as pessoas que se declaram suas seguidoras têm de Deus, a qual consolidou-se como comunhão do Filho com o Pai no Espírito e veio, por isso, a ser denominada Trindade pela comunidade cristã.

Recordar o enraizamento da imagem cristã de Deus no testemunho de Jesus e na experiência que as comunidades reunidas em seu nome fizeram da presença de seu Espírito permite evidenciar o que foi dito anteriormente sobre a distinção entre o ato de crer e suas expressões: na base da confissão de fé está a experiência. É ela quem dá consistência à confissão de fé e possibilita a interpretação desta em diferentes contextos. Deslocada da experiência, do ato de crer, a confissão de fé corre o risco de ser instrumentalizada como representação performativa de uma forma de viver até mesmo contraditória com suas origens. Um exemplo desse desvio é o problema da violência das religiões.

Nesse ponto, voltamos à questão da relação entre fé e política. Perguntávamos sobre o impacto da experiência de fé da pessoa crente na esfera política. Pode-se dizer que a articulação teológica entre fé e política se apoia na articulação entre o ato de crer e suas expressões. A linguagem pela qual se expressa a pessoa crente é, em última análise, um modo de viver.[6] É a forma de se colocar no mundo o sinal, notavelmente frágil, da experiência de fé. Nesse sentido, enquanto pessoa que vive na sociedade de seu tempo, o crente manifesta sua fé na esfera política, primeiramente, por uma certa maneira de se colocar nesse espaço.[7] Uma vez que o ato de crer comporta representações que performam um modo de viver, é precisamente esse modo de viver, de se relacionar, de se colocar nos espaços que indica o referencial de tal postura. No caso específico da tradição cristã, como vimos, essa representação remete à pessoa de Jesus. É, portanto, na referência ao seu testemunho, no mesmo Espírito que o animou, que os cristãos são chamados a viver, inclusive, sua vida política.

Do ponto de vista prático, isso equivale a dizer que a presença crente na esfera política não se caracteriza, principalmente, pela defesa de valores e doutrinas, como não é raro encontrarmos. Nesses casos, pode-se até falar em atuação política no nível do religioso. O problema, no entanto, é que ao associar o religioso exclusivamente às suas representações da realidade, corre-se o risco de esvaziá-lo da experiência que o deveria sustentar, fazendo das ideias religiosas, inclusive, fonte de violência.


*Milena Medeiros e Marques é graduada em Teologia (Unisal-SP) e Pedagogia (UNESP-SP), Mestre em Teologia pela FAJE, Belo Horizonte. Professora de teologia no Centro Unisal e também professora de educação infantil na Rede Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo.

[1][1] Alexandre A. Martins. COVID-19, política e fé: bioética em diálogo na realidade enlouquecida. (São Paulo: Gênio Criador, 2020) 216 p. [2] Charles. Taylor. Uma Era Secular. (São Leopoldo: Unisinos, 2010), 13-15. [3] Jürgen Moltmann. “A libertação para a vida” in _____. O Espírito da vida. (Petrópolis: Vozes, 1999), 101-120. [4] Igreja Católica Apostólica Romana. Catecismo da Igreja Católica. (São Paulo: Loyola, 2000) n.150, p. 49-50. [5] Agostinho, Santo. A Trindade. Livro XIII, 2, 5. (São Paulo: Paulus, 1995). [6] Christoph Theobald. A Revelação. (São Paulo: Loyola, 2006), 60. [7] Idem. L’a foi trinitaire des chrétiens et l’énigme du lien social” in _____. Le Christianisme comme style. (Paris: Cerf, v. 2). 731-777.

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