Ao Presidente Lula, uma oportunidade ao Brasil



Hoje celebramos a vitória democrática do Lula, mais uma vez há uma oportunidade para repensar e reconstruir o Brasil para todos os brasileiros e brasileiras, mas a partir de baixo, isto é, dos pobres e marginalizados com políticas que estruturam oportunidades para que possam crescer de forma autônoma e sustentável. Com Lula, poderemos dialogar e criticar para avançarmos em um projeto de construção coletiva. Embora eu seja um apoiador do PT desde os meus tempos de adolescência, nunca o deixei de criticar, como fiz em relação ao projeto da usina hidrelétrica de Belo Monte e mesmo em um encontro com o então Ministro da Saúde Alexandre Padilha sobre sua manobra para se tornar presidente do Conselho Nacional da Saúde, quando tradicionalmente era para ser a vez de alguém que representasse os usuários do SUS a ocupar a presidência. Escrevi e publique artigos criticando o PT, como uma crítica ao Partido dos Trabalhadores a partir do pensamento de Simone Weil. Nunca fui atacado com nenhum colega petista ou de esquerda em nenhuma dessas ocasiões. O diálogo foi amigável e produtivo, mesmo com divergências. Assim espero que ocorra com o novo governo Lula, dando-nos uma nova oportunidade para dialogarmos, com participação popular que reúne pessoas de diferentes perspectivas e suas divergências.

Como democrata que é, Lula e seus aliados agora precisam reestabelecer a República Federativa Brasileira e governar como verdadeiros republicanos. Mesmo com muito abalo e ataques contras as instituições que a estruturam por políticos que democraticamente chegaram ao poder e lá permanecerão até dia 31 de dezembro, a democracia brasileira se mostrou resiliente e saiu vitoriosa nessa eleição. Agora Lula tem a missão de governar como um republicano, fortalecendo as instituições da República para que seu governo seja uma administração que cuide da coisa pública (res – publica), coisa que a atual administração federal nunca soube fazer, governando para seus próprios interesses (reflexão essa que fiz nesse blog). Lula disse que prefere a palavra “cuidar” em vez de governar. Disse querer ser presidente novamente para cuidar do povo, reafirmando no seu primeiro discurso como presidente eleito que terá um cuidado especial com os mais necessitados. Cuidando dos mais necessitados se cuida de todos, porque é com a elevação e o florescimento dos pobres e dos grupos historicamente marginalizados que se coloca o país no trilho da justiça, beneficiando a todos sem exceção.

Em uma república democrática como a Brasileira, o diálogo não é apenas importante, mas fundamental e a participação não é opção, mas essencial. Lula sabe disso.

Há muita coisa para fazer, a missão é grande. Lula não é o salvador da pátria, nem um messias. Mas um político eleito democraticamente, que reuniu diferentes forças em um complexo processo eleitoral dentro de um país ferido pela discórdia, por injustiças e pelo crescimento da pobreza e da intolerância.

Contudo, essa vitória eleitoral tem um sabor único. Pessoalmente, tem um sabor que soma a minha história pessoal, de certa forma perpassada pela presença do Lula como liderança política. Quando ele foi injustamente preso, um grande sentimento indignação me dominou. Tal injustiça teria grandes consequências para a vida do Lula e da sua família, primeiramente, e para o Brasil, pois foi um ato para retirá-lo da política e abrir caminho para a vitória eleitoral do seu oponente com um discurso de ódio e intolerância que dominaria o Brasil. Essa é a realidade do Brasil hoje, mas dividido e intolerante do que nunca, com crises socioeconômica, ambientais e humanas gigantesca, e um estado desmantelado. Porém, a história continuou, Lula provou sua inocência e o povo o deu mais uma oportunidade, que é uma oportunidade para o Brasil.

Durante o tempo que Lula estava na prisão em Curitiba, assim como muitas pessoas conhecidas e anônimas, eu – mais um anônimo – escrevi uma carta para ele. Não sei onde a carta foi parar, se ela sequer chegou ao Lula ou se ele teve tempo para a ler entre tantas outras que recebeu. Talvez, essa carta foi mais para mim do que para ele. Para eu continuar acreditando que poderia ver o que vi na noite de 30 de outubro de 2022. Dessa forma, partilho com vocês essa carta e os convido a participarem da vida sociopolítica do Brasil por meio do diálogo e da consciência crítica, abertos para entender que para avançar na justiça precisamos cuidar dos mais necessitados em um projeto coletivo de participação popular.




Milwaukee, WI, 16 de abril de 2019

Querido Presidente Lula,


Ainda lembro da primeira vez que escutei seu nome e senti o vigor do seu carisma. Foi na campanha eleitoral de 1989. Eu tinha apenas sete anos, viva numa pacata cidadezinha no interior de Minas Gerais e, como toda criança de família pobre, meu sonho era apenas estar com meus pais sem se preocupar com o dia de amanhã. Meu pai era um pequeno comerciante, que batalhava diariamente para manter um açougue, onde vendia carne para sustentar sua família: minha mãe, minha irmã, meu irmão caçula e eu, o primogênito. Meu pai era um homem com pouquíssima escolaridade, apenas tinha, como dizia naquele tempo, a quarta série primária. Não sabia o porquê, mas ele tinha uma ligação forte com o senhor e em 1989 foi para as ruas com uma bandeira tendo uma estrela e intercalava o som que saia da sua voz que ora gritava Lula presidente e ora cantava Lula lá brilha uma estrela. Com sete anos e segurando a sua mão pelas ruas da cidade, eu não entendia muito bem o que se passava, mas sentia que esse tal Lula, simples como nós e barbudo como meu pai, nos fazia ter esperança.

Demorou alguns anos para eu entender o que significaria o grito de meu pai de apoio ao senhor. Foi compreendendo na nossa própria caminhada existencial, na qual perdemos o açougue e fomos obrigados a migrar para uma terra muito distante, o Acre, onde minha família estabeleceu residência, que compreendi a sua luta. A pobreza e a dificuldade me fizeram partir de casa aos 14 anos para a metrópole paulistana. Lá – terra na qual os mais velhos me diziam ser onde filho chora e mãe não ver, na luta diária para sobreviver – consegui compreender o seu sonho de um Brasil onde ninguém precisasse sofrer as dores da pobreza. Assim, como meu pai, gritei e cantei Lula presidente em 1998 e 2002. Chorei de tristeza na primeira e de alegria quando, da Av. Paulista, ouvi o senhor dizer que finalmente a esperança venceu o medo.

E venceu mesmo. Com o seu trabalho, o Brasil cresceu, milhões tiveram oportunidades e deixaram a pobreza. Como eles, minha família e eu crescemos, tivemos oportunidades e saímos da pobreza. Passamos de pessoas que precisavam de ajuda para pessoas que contribuem para o crescimento do país e ajudam outras pessoas; de pais que mal sabiam ler e escrever a filhos que se tornaram a primeira geração a sentar nos bancos universitários e foram além, aventurando pelo mestrado e doutorado. Hoje colaboramos com o Brasil e lutamos pela justiça por onde passamos. A esperança que venceu o medo tem me conduzido pelo mundo com um grito profético por justiça e paz.

Caro presidente Lula, me entristeço ao ver que estão tentando calar a sua voz e desfazer o seu sonho de um Brasil mais justo, onde o filho de um homem pobre tenha a oportunidade de estudar e contribuir com o crescimento do país. Mas sua voz não vai se calar. Seu sonho é o sonho de muitos. Sua luta é nossa luta por justiça, liberdade e paz. O vigor do seu carisma que senti pela primeira vez ainda menino se encontra no meu vigor de lutar por um outro mundo possível, onde a justiça, a liberdade e a paz reinam.

Meu abraço fraterno,


Alexandre A. Martins


A esperança renasce com a eleição de Lula. O diálogo crítico e tolerante voltará a fazer parte da nossa vida social e política. Os pobres e as populações historicamente marginalizadas – altamente atacadas nos últimos anos – voltarão a ser considerados nas políticas públicas. E os organismos de participação social e os conselhos deliberativos, como os conselhos de saúde, serão regatados do ostracismo que foram colocados pelo governo atual. Contudo, Lula não é o salvador da pátria e não faz milagres. O Brasil de hoje não é o que ele encontrou em 2003. Os desafios são muitos maiores e complexo, em um país que necessita de um processo de reconciliação. Mas hoje, podemos sonhar e já começarmos o trabalho por um novo Brasil, cada um fazendo o que é possível no seu próprio contexto e Lula na sua liderança política nacional. O Brasil tem uma nova oportunidade.


*Alexandre A. Martins is an assistant professor at Marquette University in Wisconsin, USA. Author of several articles and books in social ethics, bioethics, and global health, such as Covid-19, Política e Fé: Bioética em diálogo com a realidade enlouquecida (Gênio Criador, 2020); The Cry of the Poor: liberation ethics and justice in health care (Lexington Books, 2020)

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