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Resenha: MARTINS, A.A., Covid-19, política e fé: bioética em diálogo na realidade enlouquecida, São


Por Milena Medeiros e Marques*


O livro Covid-19, política é fé: bioética em diálogo na realidade enlouquecida de autoria de Alexandre A. Martins[i] apresenta uma série de reflexões pessoais do autor provenientes de seu contato direto ou indireto com os fatos relacionados à pandemia da Covid-19. Tais fatos são analisados por ele na perspectiva da ética teológica, levantando questões que implicam relações entre fé, saúde, ciência, economia, política e sociedade. Composto por 17 capítulos independentes cujos temas refletem as questões sentidas mais fortemente em diferentes momentos da pandemia, a obra propõe-se a articular temas bioéticos com a realidade vivida.

A maioria dos capítulos levantam questões bioéticas explícita e diretamente relacionadas à saúde[ii]. Nesses destaca-se o comentário do autor acerca da necessidade de princípios de saúde pública para lidar com o cenário de pandemia. Martins explica como os princípios de ética clínica relacionados à atenção individual do paciente, embora necessários, são insuficientes para atender às necessidades sanitárias impostas por uma pandemia. Nesse cenário, trata-se, conforme o autor, de focalizar a saúde da população como um todo, o que se faz a partir de princípios éticos de saúde pública: equidade, alocação de recursos e distribuição justa de riscos e benefícios na sociedade. O autor mostra como a adoção da perspectiva de saúde pública na pandemia oferece importantes elementos de discernimento sobre dilemas éticos que abrangem desde situações de atendimento inicial ao paciente até casos graves de pacientes em UTI em que o teor das questões chega à difícil decisão sobre a escolha do paciente que receberá um tratamento altamente especializado quando não há recursos suficientes para o atendimento de todos. Martins indica, ainda, como o foco na saúde pública é um fator que pode impactar, inclusive, a saúde mental dos profissionais de saúde. Estes, muitas vezes, além do esgotamento de forças físicas, podem chegar ao limite de seus recursos psíquicos diante dos dilemas éticos, ainda mais se os enfrentarem isoladamente. Nesse sentido, o discernimento coletivo a partir de princípios de saúde pública, pode oferecer um suporte emocional aos profissionais em seu trabalho junto aos pacientes acometidos pela Covid-19.

Da atenção às questões especificamente clínicas, Martins alerta para o debate sobre a saúde pública[iii]. Comparando os sistemas de saúde no Brasil e dos Estados Unidos, mostra como a falta de participação do Estado no oferecimento e gestão de um sistema público de saúde repercute na desigualdade de oportunidades de acesso aos organismos de atenção à saúde, desde a atenção básica até os tratamentos especializados. Esse quadro tornou-se ainda mais grave com a pandemia, levantando a questão do acesso à saúde como direito humano.

Encontra-se em outros dois capítulos (6 e 14) uma reflexão de caráter acentuadamente filosófico. No sexto capítulo trata-se da discussão sobre a questão da “verdade”, diante do fenômeno do impacto sobre as pessoas, grupos e sociedades das informações falsas, as chamadas fake news. Martins chama atenção para o papel dos afetos no fenômeno das notícias falsas partindo da clássica definição escolástica sobre a verdade como “adequação da proposição à realidade” para propor que o impacto notório das fake news sobre as pessoas reflete uma tendência de adequação da proposição aos próprios desejos. Inverte-se, assim, a estrutura de conhecimento. Ao invés de partir da realidade para a formação das ideias, assume-se como verdade aquelas ideias que correspondem ao que a pessoa deseja, sem que necessariamente, elas tenham respaldo em dados da realidade.

Obliquamente relacionado a essa questão, como reflexo prático da breve “epistemologia” das fake news aparece o tema do diálogo (cap. 14). Tendo como pano de fundo a polarização ideológica potencializada pelas bolhas constituídas nas redes sociais, Martins declara sua confiança no poder do diálogo como ato de libertação. No entanto (a conjunção adversativa aparece inclusive do título do capítulo), o autor defende condições que possibilitem o diálogo, como a disposição ao crescimento e à busca do bem comum e reconhece que, no, cenário atual, a ausência dessas premissas inviabilizam efetivamente o diálogo.

Como já indica o título do livro, a política está presente quase todos os capítulos, seja como pano de fundo da discussão seja como tema enunciado explicitamente. Assim, ao falar sobre a falta de harmonia entre ciência, economia e política no enfrentamento da Covid-19 no Brasil, desarmonia capitaneada pelo poder executivo federal, Martins indica a falta de alinhamento como fator importante na desestruturação do bem público (cap. 10). O papel da política aparece ainda em sua relação direta com a economia no texto em que Martins critica o capitalismo neoliberal por sua incapacidade de promover justiça socioeconômica e cuidar da saúde do povo infectado pelo coronavírus e os seus doentes (cap. 10, p. 91).

A relação da bioética com as relações sociais aparece na crítica às desigualdades sociais diretamente ligadas à questão racial (cap. 12 e 15). O autor toca no assunto a partir dos casos do assassinato de George Floyd (1973-2020) da cidade de Minneapolis (Minnessota, EUA) e a trágica morte de Miguel, aos 5 anos de idade, numa queda do 9 andar de um edifício em Recife (Pernambuco, Brasil). Sobre o primeiro fato, Martins discorre sobre o tema do racismo estrutural mostrando que a possibilidade da reconciliação social está condicionada à justiça em relação aos que historicamente foram oprimidos. Nesse sentido, afirma: “o que existe é opressão histórica que se perpetua por meio de estruturas socioeconômicas que mantêm os privilégios de uma ‘raça’ herdeira dos benefícios construídos pela dominação histórica e a opressão de uma outra, que carrega essa estrutura injusta nos seus ombros, por meio de um racismo sistêmico que mantém o privilégio dos beneficiados historicamente” (p. 103-104). Em relação ao caso da morte de Miguel, o autor apresenta uma reflexão sobre o sofrimento, a partir do pensamento da filósofa francesa Simone Weil, mostrando que a identificação com as pessoas em seu sofrimento é um traço fundamental, na tradição cristã, da postura de fé. Nesse sentido, insere-se a crítica do autor em relação a práticas religiosas jactantes em que a confissão de fé não reflete-se numa efetiva compaixão pelo outro que sofre.

Prof. Francisco Catão lecionando teologia

O último capítulo do livro (17) difere-se dos demais pelo estilo da escrita e por ser uma homenagem do autor ao seu professor de teologia, Francisco Augusto Carmil Catão falecido em maio do ano corrente aos 93 anos de idade. Trata-se do resultado de um semestre de trabalho do grupo de estudos idealizado por Martins e orientado pelo referido professor no ano de 2007. Nesse texto, o tema é explicitamente o da fé. Uma reflexão sobre o hesicasmo, uma antiga tradição espiritual cristã, prevalente no monasticismo oriental. O texto simples escrito por estudantes de teologia, oferece um aperitivo aos que se interessam teórica ou praticamente por espiritualidade.

Ao avaliar o conjunto do livro apresentado por Martins, percebe-se que o subtítulo da obra “Bioética em diálogo na realidade enlouquecida” expressa com justiça o estilo da obra. Martins escreve de maneira clara e direta sobre fatos decorridos nesse tempo de pandemia e consegue enunciar com perspicácia as questões bioéticas que emergem de tais situações, estabelecendo diálogos “na” realidade caracterizada por ele como enlouquecida “por não termos o controle que pensávamos ter” (p. 9). O leitor depara-se com termos técnicos, conceitos da área da bioética que são explicados com clareza pelo autor numa linguagem acessível ao público não especializado na área sem, contudo, prejudicar a precisão conceitual. Além disso, Martins extrapola os limites habituais da discussão bioética, evidenciando a implicação das questões sociais, econômicas e políticas nos debates sobre a ética da vida.

Demonstrando versatilidade, o autor articula saberes conceituais à experiência concreta num duplo movimento, característico de seu pensamento: transposição do conhecimento acadêmico para esferas não acadêmicas, mostrando a repercussão desses saberes em diversos âmbitos da vida pessoal e social e dinamização da reflexão científica, trazendo à tona nos debates do meio acadêmico a realidade vivida, a partir da qual a reflexão teórica adquire consistência. Um dos aspectos mais meritórios da obra consiste justamente nesse estilo que introduz um público amplo em discussões bioéticas, possibilitando, mais que um acesso a saberes da área, a iniciação a uma forma de pensar a partir da realidade vivida.


*Milena Medeiros e Marques é graduada em Teologia (Unisal-SP) e Pedagogia (UNESP-SP), Mestre em Teologia pela FAJE, Belo Horizonte. Professora de teologia no Centro Unisal e também professora de educação infantil na Rede Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo.

[i] Professor de ética social, bioética e ética teológica na Universidade Marquette em Wisconsin, EUA com pós-doutorado em Democracia a Direitos Humanos (Centro de Direitos Humanos da Universidade de Coimbra), doutorado em Ética Teológica e Bioética (Universidade Marquette), mestrado em Ciências da Religião (PUC - São Paulo) e especialização em Bioética (Centro Universitário São Camilo). Coordenador regional (América Latina e Caribe) da Catholic Theological Ethics in the World Church. Autor de vários livros em português e inglês, sendo o mais recente: The Cry of the Poor: Liberation ethics and justice in health Care, Lanham, MD: Lexington Books, 2020. [ii] Ver capítulos 1 a 5 e 7 a 9. [iii] Cf. capítulo 5 “O custo da ausência de um sistema público de saúde”.

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